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Estive meditando... se o Antônio-blogueiro (este que vos fala agora) trabalhasse para o Antônio-profissional (aquele que eu deixo numa gaveta, todos os dias quando saio do trabalho), provavelmente estaria demitido.
Além dos sérios questionamentos quanto à qualidade do trabalho – só para que vocês tenham uma idéia, mesmo escrevendo em um blog e trabalhando com a palavra escrita todos os dias, ainda não tive a coragem de dedicar alguns minutos ao aprendizado das mudanças referentes à reforma ortográfica (pessoalmente considero ridícula, mas fazer o quê?!) -, tenho absoluta convicção de que o Antônio-profissional ficaria p...da vida com a inconstância do blogueiro.
“Este blog nem sequer tem pauta!” – acaba de gritar o Antônio-profissional lá do fundo da gaveta trancada a chave.
O Antônio-blogueiro nem liga. Apesar de ter um texto pronto, resolve escrever outro. Boas idéias não surgem do nada, mas às vezes aparecem sob a forma de comentários.
Tathiana:
“Prof. Xavier, pode me mandar uma lista dos melhores livros não jurídicos que você já leu? Obrigadinha. Bjs”.
Pouco importa qual Antônio esteja a teclar de forma preguiçosa agora (acabei de almoçar, fico parecendo um urso que sente a chegada do inverno...), a resposta é não. Eu não conseguiria “fechar” uma lista desta nem em um milhão de anos.
Não porque tenha lido muito ou pouco, ou porque não deseje indicar os livros, mas por conta da absoluta impossibilidade de lembrar, desde os mais remotos dias da minha infância, todos os livros que li... quais me tocaram de uma forma mais intensa, quais os que moldaram meu gosto literário, minha personalidade (acredito ter descoberto recentemente a expressão que me define “sou um romântico-cínico”...) e minhas escolhas de vida.
Posso fazer o trabalho pela metade (o Antônio-profissional acaba de exigir que o blogueiro receba seu aviso prévio e seja dispensado sem indenizações! – “trabalho pela metade!”). Vou listar de memória alguns livros (não só romances) e em alguns deixar comentários sobre a importância de cada um.
Noutros, a indicação de um livro na verdade sugere a leitura da obra de um autor. Resgato a melhor obra de cada (na opinião do blogueiro) e indico o autor (obviamente, já tendo lido outros livros do citado).
Vamos lá:
1 – “Éramos Seis” – Maria José Dupré. Acho que é o livro mais importante da minha vida. E sei que a menção a ele pode surpreender muitas pessoas. A maioria vai se lembrar da novela do SBT. Mas eu tenho memórias mais pessoais...
Encontrei o livro em seu pior momento. Jogado ao chão, literalmente sendo varrido por minha avó. Estava jogado na dispensa daqui de casa. Todo sujo, coberto de poeira e com a capa soltando. Tinha pertencido a uma das minhas tias na época de colégio dela (o livro era da “coleção vaga-lume” – como eu adorava aqueles livros!) e estava percorrendo seus últimos metros antes da lixeira.
Eu o salvei. E ele me deu valores e sentimentos que me transformaram no que sou hoje (tinha, acho eu, sete/ oito anos na época).
O livro é simples, mas verdadeiro. Era a narrativa de uma vida, sem pirotecnias, sem grandes efeitos...
Uma vida apenas.
“Tudo fica vida, só vida, em seu extraordinário romance” – Monteiro Lobato prefaciando a obra. Diz tudo.
Ainda hoje me arrependo de ter doado aquele livro a uma biblioteca. Tenho outro volume aqui comigo, guardado, mas queria ter conservado aquele exemplar sujo e deteriorado. Uma parte de mim solta pelo mundo. Quem sabe fazendo por outras pessoas o bem que fez a mim;
2- “As comédias da vida privada” – Luis Fernando Veríssimo. (Caso alguém deseje adquirir, sugiro buscar a coletânea “Todas as comédias” que reúne as três obras: “As comédias da vida privada”, “As comédias da vida pública” e “As novas comédias da vida privada”);
3 – “O livro de ouro da Mitologia” – Thomas Bulfinch. Depois dele foram outros nove livros sobre mitologia (Greco-romana, nórdica, medieval, culturas da Asia, etc...) e uma paixão. Gostaria de ter mais tempo para ler sobre mitologia. Egito e África negra são dois temas nos quais permaneço um ignorante.
Parênteses: para quem acha que é bobagem estudar mitologia, sou capaz de garantir que isso gera reflexos positivos em diversas esferas de nossa vida...inclusive as mais íntimas;
4 – “Para viver um grande amor” – Vinicius de Moraes. (indico a obra inteira – mestre!);
5 – “O poeta da paixão. Vinicius de Moraes. Uma biografia” – José Castelo. Não sou grande fã de biografias, mas marcou muito. Não é do mestre, mas é sobre o mestre;
6 – “O príncipe” – Maquiavel;
7 – “O Poderoso Chefão” – Mario Puzo. Li antes de ver o filme. Assim como fiz com “O silêncio dos inocentes”. Em ambos os casos a escolha foi acertada. Mas a obra de Puzo se destaca porque, em alguns aspectos da vida, mesmo que não seja fácil admitir, deve-se agir como Michael Corleone;
8 – “César Imperador” – Max Gallo e “Napoleão” – Alexandre Dumas. Livros ganhos num mesmo aniversário e presentes de pessoas que trabalham (ou trabalharam) comigo. Sei que não foi combinado, mas a coincidência é intrigante (em especial porque sei que são pessoas que nutrem carinho por mim). Dois romances históricos. Dois grandes homens. Duas histórias de sucesso. Dois finais melancólicos em virtude da cegueira causada pela própria glória, pelo orgulho e pela impetuosidade.
Lembra alguém?
(O Antônio-profissional está resmungando dentro da gaveta... não gosta muito quando falam dele de forma disfarçada...);
9 – “Viagem ao Centro da Terra” – Julio Verne. Toda criança deveria ler. Todo adulto deveria reler (ou ler pela primeira vez) de tempos em tempos alguma obra de Verne;
10 – “Cem anos de solidão” – Gabriel Garcia Marquéz. Realismo fantástico. E eu bem me lembro que na universidade me chamavam de “O fantástico mundo de Bobbio” (numa referência ao filósofo/jurista italiano e ao desenho animado do Bob). Indico toda a obra do G.G.M.;
11 – “Dicionário da Vida Sexual” – sem autor, editora Abril (2 volumes). Era um dos livros proibidos para mim na pequena biblioteca da casa de minha avó. Não adiantou nada a proibição de minha avó. Minha mãe descobriu minha leitura quando ainda estava nas primeiras páginas e liberou sem problemas. Não era nem adolescente ainda (chuto que deveria ter uns 11 anos). Foi onde achei minhas primeiras referências sobre mitologia. Além de me conceder certas vantagens até hoje.
Parênteses: é incrível como certas “artimanhas” e “malabarismos” podem ser explicados cientificamente. Facilita muito entender como o corpo funciona. Tirar proveito disso fica até fácil. O problema é que as pessoas pensam que estudar é sempre algo chato. P. ex, quando um homem lê o Kama Sutra ele está, nada mais nada menos, que realizando um estudo.
Parênteses 2: Nunca li o Kama Sutra (inteiro... apenas pedaços esparsos em ocasiões diversas). Para mim é um estudo de dupla e ainda não encontrei a parceira de laboratório ideal. Apesar de já saber de antemão que poderei pular alguns capítulos...;
12 – “A Invasão das Salsichas Gigantes” – Arnaldo Jabor. Precisa dizer mais?! (se foi do Jabor, leia! Mesmo que seja para poder criticar com fundamento...);
13 – “Minhas vidas passadas a limpo” – Mario Prata. Leitura leve e engraçada. Os livros do Mário são sempre assim. Indico a obra completa;
14 – “Rei Lear” – Shakespeare. Eu indicaria a obra completa... mas não vou. Basta ler a melhor dele (opinião pessoal...). Nem todo mundo consegue ler o mestre inglês. Depois você decide se lê outros títulos (obras maravilhosas);
15 – “Pérolas Esparsas” – autor desconhecido. Eu quase incluo aqui as fábulas de La Fontaine. Mas antes delas houve outro livro repleto de pequenas lições de moral. Ainda conservo na minha biblioteca pessoal apesar de saber do cunho religioso que o cerca. Ao menos tem a vantagem de não doutrinar, mas sim, inspirar. É um livro sobre o qual pretendo escrever um post algum dia...
(O Antônio-profissional agora está gargalhando “olha aí a falta de comprometimento! ‘algum dia’ ele escreve sobre isso...”);
16 – “Pequenas Memórias” – José Saramago. Indico a obra inteirinha. Inclusive o mais recente “A viagem do Elefante”. Só ressalto que o livro indicado deveria ser lido antes de todos os outros. Ajuda a entender a mente do mestre lusitano. E nos deixa mais próximos do gênio;
17 – “Crime e Castigo” – Dostoievski. Quer entender sobre culpa? Leia. Não é literatura fácil de acompanhar, mas é arte pura;
18 – “On the Road” – Jack Kerouac. Quantos livros você conhece que podem se gabar de terem “criado” uma geração?! Kerouac libertou muitas almas para um mundo de liberdade e aceitação das diferenças. Deixou de ser livro para ser ícone;
19 – “Na colônia penal” – Franz Kafka. Tudo o que eu disse sobre a literatura de Dostoievski se aplica a Kafka. Arte pura.
Parênteses: 99% das pessoas que afirmam ter lido Kafka dizem ter lido “A Metamorfose”. Na minha percepção pessoal temos algo, mais ou menos, assim:
25% realmente leram e entenderam;
25% tentaram ler, ou mesmo leram, e não entenderam bulhufas;
50% só sabem o título do livro mais famoso dele.
20 – Diversos outros... Só para dizer que não falei das flores... algumas indicações rápidas: “Ilíada/Odisséia” de Homero; “A Divina Comédia” de Dante Alighieri; “Cem sonetos de amor” de Pablo Neruda; “O retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde; As histórias de Sherlock Holmes, de Sir Arthur Conan Doyle; tudo do Machado de Assis; dentre os livros da moda... os dois do Carlos Ruiz Zafón publicados no Brasil (“A sombra do Vento” e “O jogo do anjo”) e “Água para Elefantes” da Sara Gruen.
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Ufa... eu podia alongar mais, mas começaria a colocar em dúvida algumas indicações então... vamos parar por aqui.
Satisfeita Tathi?
Beijos e abraços,
Antônio J. Xavier.
P.S.: O Antônio-estudante tirou folga hoje, mas pede compreensão aos amigos do blog. Afinal de contas, é ele que tem tomado todo o tempo livre dos outros Antônio’s. Acaba de passar um pito no Antônio–profissional, porque segundo ele (estudante), sem o carinho que emana deste espaço seria muito mais difícil seguir em frente...
P.S.(2): O Antônio-blogueiro agora sorri ironicamente...